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Cobranças interiores, comparações e metas

Cobranças interiores, comparações e metas

Faz tempo que eu não posto um daqueles insights aqui na Sketcheria, e quero compartilhar um momento de reflexão que tive, com os amigos do traço.

Vocês já ficaram alguns meses sem desenhar?

Nesta coisa da reforma/mudança, eu fiquei 8 meses num “gancho” auto-imposto, e tive que ser muito seletivo com os trabalhos que peguei neste período, o job tinha que ser grande pra valer a pena, aí eu virava uma ou duas noites trabalhando até a exaustão, entregava e voltava ao meu alter-ego de pedreiro. Confesso que foram poucos trabalhos neste ano, tive que dizer muito “não”, mas os “sim” pagaram bem as contas do mês.

O problema é que vivemos de performance, e como músicos, atletas, etc, temos que treinar e praticar muito para manter nossos resultados.

O custo de ficar tanto tempo longe dos papéis é que minha mão engessou um bocado e o resultado atual não corresponde a minha expectativa. Pode até corresponder a quem vê os desenhos, mas eu sei os meus limites, conheço muito bem o que eu sei e o que eu não sei fazer, conheço minha produtividade, e estou pagando caro pelo afastamento.

O Oscar Peterson costumava dizer que se ele ficasse um dia sem tocar piano, ele sentia a diferença. Se ficasse dois dias, a esposa dele já percebia, e se ficasse 3 dias, toda a platéia notaria.

Vivemos como atletas, buscando superar nossos resultados, ou ao menos mantendo os números que já adquirimos, e não se deixe enganar, isto não é um patrimônio permanente, se cochilar o cachimbo cai.

O meu nível de cobrança pessoal, meus padrões de qualidade interiores chegam a ser cruéis, e eu tenho que fazer um esforço imenso para não me deixar torturar pela auto-crítica, e daí que vem a minha dica para quem sofre de “síndrome de alta exigência” e do “mal de comparativismo com o trabalho alheio”, não deixem que seus padrões de qualidade e expectativa com o próprio trabalho afetem a sua auto-estima, nem se deixem afetar por ver outras pessoas detonando, cada um tem os seus fantasmas, e ninguém, ninguém mesmo, está totalmente satisfeito com o próprio resultado.

A gente sempre quer mais, e sempre se compara com os outros.

Enquanto isto é um benefício, por mantermos metas sempre altas, gera ansiedade e expectativas também altas, uma combinação perigosa e com grande potencial de frustração e sensação de incapacidade.

Como um atleta saindo de uma lesão, estou sentindo as dores da fisioterapia, do stress muscular por falta de atividade, da atrofia natural que acontece pelo afastamento e falta de continuidade nos treinos e campeonatos de alta performance.

A vantagem é que a minha recuperação não depende de treinador, fisioterapeuta, nem degrada com a idade, na verdade a idade é o meu maior aliado, afinal um artista só tende a melhorar com os anos, e pensando por este lado, eu estou com uma motivação enorme, e mais do que recuperar o meu traço, estou num processo ainda mais ousado, de descoberta e reinvenção, eu quero o que eu já tinha, mas quero muito mais, e lá vou eu novamente buscar standards mais altos do que antes, quero encontrar no meu papel o que eu ainda não tinha, quero novos desafios, quero novos resultados.

E é nesta hora que eu tenho que ser mais paciente, tolerante, gentil e carinhoso comigo mesmo, tenho que saber relevar meus erros, persistir quando quiser desistir, saber exigir mais em quantidade do que em qualidade, sem dar descanso para o lápis, mas sem fazer disto um processo tedioso ou torturante.

Eu tenho mais heróis do que se pode contar, tenho muitos ídolos e uma coleção de referências maior do que o bom senso recomenda, mas nunca vou deixar que o brilho

intenso dos artistas que admiro me tire das metas que eu estabeleci para mim, e eu sei, há muito tempo, que jamais serei tão bom quanto eles.

O melhor que eu posso ser, e tenho isto claro para mim como um objetivo alcançável, é ser um Montalvo melhor.

E isto já é um alvo distante e difícil, mas totalmente viável, porque não depende dos outros, nem pode ter como referência os resultados dos outros. A comparação é do meu trabalho passado com o presente, e como num gráfico, tenho metas para o futuro. São diferentes momentos de uma mesma pessoa, ou seja, é um comparativo absolutamente honesto, justo e sincero, afinal eu não consigo mentir para mim mesmo, e mais do que ninguém, eu sei exatamente onde eu me encontro neste gráfico.

Eu escrevi este texto, quase como se fosse uma sessão no divã do analista, porque eu sei que muita gente talentosa e com grande potencial acaba se desgastando e se remoendo internamente com comparações e metas inatingíveis, e sofre por buscar algo que eles mesmos não podem alcançar, porque usam os outros como referência.
Ninguém vai ser um Neymar, um Einstein, um Senna ou no nosso caso, um Bill Sinkiewicz ou um Benício, isto é um fato que temos que encarar e nos conformar, eles são eles e ponto final.

Eu posso ter mil heróis, como posso torcer pelo Nadal, mas sabendo que nunca serei um campeão de tênis.

O que é melhor neste tipo de auto-análise, é que cada um pode ser um “eu” melhor, e esta é uma meta viável e muito boa de se ter. Não tem como se decepcionar ou sofrer por comparação, porque com estudo, dedicação e prática, você certamente será melhor daqui a seis meses do que é agora, a não ser que faça uma grande reforma na sua casa e se torne um pedreiro temporário por mais de um semestre, como eu fiz.

O papo tá bom, mas eu tenho muito o que desenhar.

Como diz o Alberto Ruiz, um de meus muitos heróis, “Don’t just stand there, draw something!”.

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